uma carta para você
Sobre o que não consigo
parar de sentir
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Não me apaixonei devagar. Foi de uma vez, sem aviso, sem cerimônia — como quando a gente tropeça num degrau que não esperava e o coração dispara antes do corpo entender o que aconteceu. Você estava ali, sendo você, e alguma coisa dentro de mim disse: é ela, é ela. Não em voz alta. Mais fundo que isso. No lugar onde a gente guarda as certezas que não precisam de explicação.
Aquele dia na cozinha ficou tatuado em mim de um jeito que não esperava. O vapor da panela, a música baixa, o cheiro da cebola no azeite misturado com o seu perfume de um jeito que não fazia sentido ser tão bom — e era. A receita deu errado. Não me importei nem um pouco. Estava incrível.
Memória sensorial é traiçoeira: ela não pede licença. Toda vez que sinto comida quente tomando um ambiente, que ouço panela fervendo, alguma coisa em mim vai direto pra você — pra sua risada, pra sua mão ajeitando o avental torto, pra tudo que aquela tarde comum não sabia que estava construindo em mim sem a minha permissão.
O karaokê foi onde eu te vi inteira pela primeira vez. Você entregou tudo — sem medo, sem filtro, com um volume que não combinava com o tamanho do lugar e combinava perfeitamente com o tamanho de quem você é. Eu fingia que cantava mas só te olhava, observava cada detalhe — seu sorriso, seu olhar, e toda aquela alegria que se espalhava por todo o ambiente.
Rir contigo é quase constante. É o tipo de riso que sobe pela garganta sem pedir permissão, que escapa em horas erradas, que deixa o estômago doendo de um jeito gostoso. Horas depois, sozinho, eu lembro e rio de novo — e aí fico com aquela expressão boba no rosto que não tem como esconder de ninguém.
A madrugada com você tem um sabor diferente. Eram duas da manhã, a cidade tinha desistido de fazer barulho, e a gente ainda estava ali — falando, sem querer ser o primeiro a dizer bom, então... O relógio virou inimigo. Cada hora que passava era uma hora a menos de algo que eu não conseguia nomear mas não queria largar.
Conversar com você me ensinou que diálogo de verdade é raro. Você não diz o que pensa — você pensa enquanto diz, e dá pra acompanhar esse processo acontecendo em tempo real, cada ideia se formando à vista. É fascinante. É perturbador. É o tipo de coisa que faz a gente querer ficar mais perto só pra não perder nada — nenhuma palavra, nenhuma pausa, nenhum desvio de rota no meio do raciocínio.
Os fragmentos seus que ficaram guardados em mim não são os óbvios. São os pequenos: o intervalo de meio segundo antes de você rir, quando o riso ainda é só um brilho nos olhos. A velocidade diferente com que você fala das coisas que ama, como se as palavras mal conseguissem acompanhar o entusiasmo. A forma que você inclina a cabeça quando está pensando de verdade. Esses fragmentos chegam sem aviso. Chegam e ficam.
Meia-noite virou um horário perigoso. É quando a guarda baixa, quando o cansaço afasta o filtro e a gente fala o que não falaria à luz do dia. Você, nessas horas, fica mais você — mais real, mais inteira, mais presente do que qualquer versão diurna. Fico com medo de que um dia você descubra o quanto eu presto atenção nessas horas. Fico com mais medo ainda de que não descubra.
Incomoda um pouco — de um jeito bom, do tipo que a gente não quer que pare — perceber que você mudou coisas em mim sem fazer nada além de existir do meu lado. Sou mais paciente. Presto mais atenção ao que está na frente dos meus olhos. Acho graça onde antes eu deixava passar.
Gravo cada detalhe seu com uma atenção que nem eu mesmo entendo direito. A inflexão específica da sua voz quando você discorda mas está tentando ser gentil. O modo como você ri antes de contar uma história boa, já antecipando o final antes de chegar lá. A forma que seus olhos piscam quando você está realmente, completamente feliz — rápido demais pra quem não está olhando, lento o suficiente pra quem não consegue tirar os olhos de você.
O mundo te feriu… e não foi pouco.
Foi injusto, duro, às vezes até cruel — como se tivesse esquecido o valor de alguém como você.
E, sinceramente, é difícil aceitar que alguém tão incrível tenha tido que carregar tanto peso sozinha.
Mas, de alguma forma, Deus me colocou no seu caminho.
E eu não acredito que isso seja por acaso.
Eu sinto, de verdade, que estou aqui pra te mostrar um tipo de felicidade que talvez você já tenha até deixado de acreditar que existe.
Eu não vou te vender perfeição… porque isso não é real.
Mas eu te prometo presença.
Te prometo ficar, mesmo quando for difícil.
Te prometo te respeitar de um jeito que talvez você nunca tenha sentido antes.
Te prometo escolher você… todos os dias.
Mesmo nos dias ruins.
Principalmente neles.
Porque você não é alguém comum.
Você nunca foi.
E tudo que você enfrentou não diminuiu quem você é… só provou a força absurda que existe dentro de você.
Nada extraordinário nessa vida vem fácil.
E conquistar você… é a prova viva disso.
Releia todas as iniciais agora como se fosse uma pergunta.
✦ leia a primeira letra de cada parágrafo ✦